Saudações literárias!
Conto Publicado!
Olá, pessoal! É com grande satisfação que comento que participei do 1º Concurso Nacional de Contos, promovido pelo Tribunal Regional Eleitoral do Paraná e recebi a notícia de que tive meu conto “A vontade do Senhor” selecionado para fazer parte do livro resultante desse concurso, intitulado “Sementes”.
A seguir, compartilho com vocês o conto contemplado e o link para o e-book, que é gratuito e tem excelentes contos!
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A vontade do Senhor
Por André B. Ferreira
Amanhecia quando a chuva fina caía sobre os campos. Os empregados e máquinas da grande fazenda estavam prontos para iniciar mais um dia de trabalho no plantio da soja. Satisfeito, Jaime olhava para suas terras e seus funcionários que se agrupavam no enorme galpão do maquinário.
Tudo sairia dentro do cronograma. Sua esposa já estava vindo com aquela conversa de viajar pela Europa novamente. Na verdade, ele detestava tirar férias, viagens e descanso. Caribe, Mônaco, Aspen. Esses lugares só eram interessantes nos primeiros dias. Preferia ficar ali na fazenda, sentindo o cheiro do campo, coordenando o trabalho pesado, gerando riqueza, movendo a engrenagem que sustentava o país, vendo seu patrimônio crescer.
Às voltas com aqueles pensamentos, olhou para o lado e percebeu um homem na casa dos trinta anos aproximando-se cabisbaixo. Botas de borracha, camiseta surrada, calças encardidas. Reconheceu logo o empregado.
– O que houve, Heitor?
O funcionário mal levantou a cabeça.
– Bom dia, patrão. Sabe o que é, estou com um problema.
– Como assim?
Heitor segurou o crucifixo que trazia pendurado no pescoço enquanto falava.
– Recebi uma ligação da minha mãe e meu pai está muito mal no hospital.
– Que pena.
– O médico vai operar hoje de tarde. E eu queria estar lá com eles.
O canto dos quero-queros preencheu o silêncio do patrão. Após um momento, Jaime olhou para o lado e fez uma careta de desconforto.
– Eu sei que não é uma situação fácil, mas você sabe que não podemos nos atrasar no cronograma. Se não conseguirmos plantar tudo em tempo, vamos ficar no prejuízo.
– Eu sei, patrão, mas é que ele está muito mal…
– Olha, eu sinto muito, mas aqui temos uma missão importante a cumprir. Há quantos anos você trabalha comigo?
Heitor baixou o olhar.
– Cinco.
– E seus filhos não vão no ônibus da empresa estudar na cidade sem você pagar nada por isso?
– Vão sim, senhor.
– E sua esposa não está feliz na casinha em que vocês moram aqui na fazenda?
– Claro, patrão!
– Quando você chegou aqui era só mais um desempregado com mulher e dois filhos. Agora recebe um salário e tem todas essas mordomias. Não acha que está na hora de retribuir o esforço que tenho feito por você?
O empregado estava mudo.
– Tem muita gente de olho na vaga que você ocupa. Gente que trabalharia por bem menos, garanto.
– Eu sou muito grato por isso, patrão… Mas é que…
– Então demonstre! Tenho apenas a quantidade de pessoal necessária para o serviço. Não posso me dar ao luxo de perder ninguém agora. Vamos trabalhar que já está na hora. Tenho certeza que seu pai vai ficar bem.
O empregado tocou novamente o crucifixo e baixou a cabeça.
– O senhor me desculpe, mas eu preciso ir ver os meus pais.
Jaime respirou fundo, olhou para seu Rolex, depois, para as nuvens carregadas. Os quero-queros insistiam em sua cantoria. Finalmente encarou o funcionário com um gesto resignado.
– Está bem. Se você quiser, pode ir se acha que é tão importante assim.
Heitor sentiu esperança. Poderia ver o pai. Talvez tudo desse certo ao final… O pastor da igreja sempre dizia que era preciso ter fé que as coisas se solucionariam conforme a vontade do Senhor.
O empregado levantou a vista e Jaime completou.
– Mas se for, já pode passar no escritório para acertar as contas. Pensei que você fosse um homem responsável. Que se preocupasse com a família, com o futuro dos seus filhos. Como vai ensinar a eles que o trabalho enobrece se está fugindo dele? Agora, preciso ir. Tenho muito trabalho a fazer.
Jaime deu a ordem para que os funcionários iniciassem as atividades e todos começaram a se movimentar.
Heitor abaixou novamente a vista. Mandíbula contraída, punhos fechados com força. Guardou silêncio enquanto o patrão se afastava. Sequer sentia a chuva que caía fina e molhava a pele. Depois de alguns instantes, foi até o galpão com seus companheiros, subiu numa das enormes máquinas e começou sua labuta.
Ninguém viu a lágrima que se misturou com as gotas de chuva que ainda deslizavam pelo seu rosto. Rezaria pelo pai, enquanto trabalhava. Afinal, era a vontade do Senhor.
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Link para baixar o Ebook “Sementes” nos formatos PDF ou ePUB no site do TRE/PR:
http://www.tre-pr.jus.br/o-tre/eventos-tre-pr/2019/i-concurso-nacional-de-contos-1/livro
Este é meu primeiro post no meu novo blog. Este é só o começo do blog, então fique de olho. Assine abaixo para receber notificações das minhas postagens novas.
